Na Trincheira do Poeta

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

CONTRASTES DA ATUALIDADE

Àqueles cujos dons lhes foram facultados estarão com a burra cheia!

A contradição vem da atitude de quem estendeu a lona. Será mesmo trabalhador ou está mais para burguês sindicalista? A elite deste segmento também pouco faz, a não ser greve e agitar a massa ignara.

Artigo publicado em 25/6/14 no Diário da Região - Catanduva
               
CONTRASTES DA ATUALIDADE

Há uma definição de Luc Ferri em “A Revolução do Amor” sobre burguês do século XVIII: é aquele que não precisava trabalhar para sobreviver, ou seja, que não pertencia às castas elitistas, porque tem o suficiente para sobreviver com administração dos seus bens.
Ao ver os estádios cheios, veio à mente o comentário de que os atletas, artistas e outros segmentos da sociedade moderna que apenas exercitam seus dons para o sucesso que fazem “são os burgueses do momento”.
Entendi sua afirmação, pois sou de uma geração que o futebol já encantava os jovens no Brasil pelo destaque que sempre teve e pelas somas que os craques recebiam para fazer algo que nos parecia prazeroso.
Pelo raciocínio, a esperança e vontade de ter os dons de quem fazia sucesso era imenso. Filho de caboclo que dedilhava o violão e o cavaquinho que aprendera na colônia, igualmente um tio que ainda o faz, incluindo o acordeão, era natural pensar que alguém da família os herdasse, pois o “cabo do guatambu” dá o alimento, mas seu manuseio de sol a sol, é de sangrar.
Do filósofo à lógica da vida, perpassando pela História, naquele detalhe de que ao povo “pão e circo basta”. Oportuno observar com olhar crítico as arenas lotadas e tudo parado com os olhares do mundo voltados para elas e constatar que o Coliseu perderia por placar dilatado. Elas são doze.
Alegria que vai e que vem, e as guerras continuam; o pedinte das esquinas também; os alienados pelas drogas; a pobreza e a fome no mundo não reverte. Os atores dos jogos, 1.500 aproximadamente, protagonizarão, em disputa, espetáculos cuja mídia transformará em paixão momentânea a catalisar a atenção de quem não tem necessidade de trabalhar. Estes os burgueses de ofício a desfilarem pelo mundo.
Àqueles cujos dons lhes foram facultados estarão com a burra cheia e os profissionais envolvidos na comunicação e esportes cada vez mais valorizados pela exploração da paixão do humano pela competição, onde se vê representado coletivamente como integrante de uma nação.
Que bom tivéssemos uma competição do exercício da cidadania e outras práticas... Nas poucas que temos mundialmente, o Brasil não aparece: Prêmio Nobel, Oscar, Universidade de Ponta, Prêmio Unicef e outros. Concordo que pela grandeza e riqueza natural que o país dispõe não precisamos ter complexo de vira-lata. Entretanto discordo veementemente: de não nos indignarmos em ser campeões de mortes no trânsito, em homicídios e reconhecidamente um dos povos mais corruptos do mundo.
Aos burgueses esportistas, as glórias; ao comum do povo, as migalhas com o mesmo desconforto de sempre quando se desfizer o picadeiro. A ele, pão e circo  basta! É histórico, infelizmente.
A contradição vem da atitude de quem estendeu a lona. Será mesmo trabalhador ou está mais para burguês sindicalista? A elite deste segmento também pouco faz, a não ser greve e agitar a massa ignara.
Tomara que o terceiro tempo seja de mudança na política, com qualquer resultado no futebol.
José Carlos Xavier
Coronel PM, Advogado, Professor de Catanduva

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